Villa-Lobos: do Rio de Janeiro para o mundo

 Giselia Amanyara de Souza





Villa-Lobos tocava piano, entre outros instrumentos, e fez história como compositor na música brasileira e também internacional. Foto: Arquivo Nacional.

 

Designar palavras para descrever gênios é uma tarefa árdua. Abordar a trajetória de Heitor Villa-Lobos significa narrar o surgimento de um músico multifacetado e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da música de concerto no Brasil do início do século XX. Antes de conquistar a Europa, Villa-Lobos se formou artista musical no Rio de Janeiro com influência direta da Cidade Maravilhosa. A figura dele esteve presente nos modernismos dos anos 1920 e eternizou na história a irreverência e o pluralismo que ele apresentou como compositor ao longo de seus 43 anos de carreira.

 

Popular e erudito

Heitor Villa-Lobos nasceu em 1887 e foi criado no Rio de Janeiro com sete irmãos. Neto de compositor e filho de um músico amador, o menino era tão apaixonado por sons e música que recebeu o apelido de “Tuhu” na infância, pois imitava o barulho do trem quando o ouvia passar. Aos 5 anos, aprendeu a tocar violão e violoncelo com o pai Raul e logo compôs um arranjo inspirado em cantigas de roda. Heitor tinha origem humilde, mas sempre foi musical.

Foi de casaca e chinelo que Villa-Lobos se apresentou na Semana de Arte Moderna de 1922, na cidade de São Paulo. Devido a sintomas de gota, o músico não pôde se vestir a caráter para o evento. Apesar das desventuras, a iniciativa de tocar diante de um público elitizado e fortemente crítico diz bastante sobre quem foi Villa-Lobos. Desde 1913, o compositor já criava arranjos para o piano, mas foi na noite carioca que o jovem Heitor pôde beber de fontes variadas: os bares e casas de evento com grupos de choro e música popular conduziram a música versátil e plural de Villa-Lobos, não só no piano, mas também com instrumentos como violão, saxofone e violoncelo.

Jornalista e professor da PUC-Rio, Arthur Dapieve é um grande conhecedor da música brasileira e destaca a genialidade de Villa-Lobos. O especialista coloca o músico como a cabeça de seu tempo, que se encharcou dos ritmos e sonoridades locais para escrever música clássica de um jeito extremamente brasileiro e ganhou destaque como maior compositor do universo erudito. Para Dapieve, a posição política e geograficamente privilegiada do Rio de Janeiro foi crucial para Villa-Lobos absorver todo tipo de informação artística.

“Por ser a capital da República, o Rio era também a capital cultural do país, a cidade que Villa-Lobos respirava, e a Semana, pela inovação, colocou São Paulo vigorosamente nesse mapa. Se a educação musical formal dele passava, inevitavelmente, pelos modelos europeus, a educação informal passava pelas rodas de choro populares no Rio do começo do século passado. Mais do que o nosso maior compositor no universo da música clássica, Villa-Lobos se tornou um farol para toda nossa música: um gênio que demonstrou ser possível apagar as distinções entre “alta” e “baixa” culturas”, afirma o jornalista.

Para além de simplesmente presumir o aspecto misto de popular e erudito de Villa-Lobos, Dapieve diz que é possível perceber que o vaivém entre culturas está explícito nos nomes dos arranjos do compositor. Os Choros (1920-29), as Bachianas Brasileiras (1930-45) e o Trenzinho do Caipira (1930) são exemplos de sua versatilidade. Heitor Villa-Lobos é fruto do Rio de Janeiro e atingiu a maturidade musical ainda na década de 1920. Hoje, é o músico brasileiro mais reproduzido ao redor do mundo e ainda impressiona com originalidade.

 

Criador plural e sem preconceitos

Em entrevista com o pianista e professor de música Rodrigo Alves, é possível compreender a fundo as especificidades do desenvolvimento da obra de Villa-Lobos. O legado do artista para a música brasileira é imensurável, mas pode ser analisado desde as origens. Com as respostas na íntegra, o profissional fala sobre as inspirações de Villa-Lobos e conta o processo que o tornou um dos maiores músicos da história.

 

1) Villa-Lobos sempre foi afeiçoado pela música clássica, mas também desenvolveu forte paixão pelos ritmos da noite carioca, em bares e encontros com grupos de choro. Esta versatilidade se tornou uma característica marcante do músico em meio aos modernismos vividos no Rio de Janeiro dos anos 1920. Como você descreveria Villa-Lobos e a música que ele produzia naquela época?

Eu, particularmente, não gosto deste termo “erudito”, que se liga muito à música clássica. Eu penso que erudito é tudo aquilo que você se propõe a fazer de forma acadêmica, estudada. Então, qualquer coisa pode ser erudita. Porém, Villa-Lobos tinha como característica principal usar peças folclóricas e alguns instrumentos do cotidiano, como o saxofone, na orquestra. Era um aspecto bem nacionalista. Este foi um movimento do século XIX na Europa, que acabou por acontecer no século XX no Brasil. Na Europa, tivemos Tchaikovsky na Rússia, que usava peças folclóricas cantadas na rua e as levava para o ambiente sinfônico. Villa-Lobos fez isso ao trazer o ritmo e as formas das canções para a orquestra, em vários níveis. No “Guia Prático”, [coletânea de arranjos que] ele compôs para a educação infantil posteriormente, é possível encontrar cirandas de roda transformadas em peças pianísticas. Villa-Lobos demonstrava muita preocupação com a educação musical de crianças, então ele adaptou muitas músicas para coro infantil e algumas outras peças para o “Guia Prático”. Há arranjos simples e alguns mais complexos conforme o aluno evolui. Na minha opinião, o “Guia Prático” é um livro lindo e eu uso bastante com os meus alunos. É muito interessante ver a resposta deles em estudar peças como "Pirulito que Bate Bate", que é colocado de maneira tão exuberante no “Guia Prático”. É lindo.

 

2) Antes de conquistar os palcos europeus, Villa-Lobos ganhava a vida tocando violoncelo, piano, violão e saxofone em cinemas e teatros na antiga capital do Brasil. Antes mesmo dos anos 1920, ele combinava bem a música popular com a música clássica, tendo inspiração em músicos renomados da época, como Ernesto Nazareth. Na sua opinião, qual foi a importância do início do século XX para a formação da música brasileira e para a influência que Villa-Lobos desenvolveria nas décadas seguintes?

Villa-Lobos está presente na formação dos estudantes de música e dos pianistas, em uma evolução não só técnica, mas também interpretativa. Ele é um músico muito estudado na universidade e nos cursos de piano. A gente tem o “Guia Prático” e a “Prole do Bebê”, que são livros muito usados para o desenvolvimento dos músicos. Há muita reverência pelo que foi bem feito no passado e Villa-Lobos é um compositor muito amplo. Uma comparação é que, enquanto Chopin é muito mais estudado por pianistas e Weber é mais usado por compositores e estudantes de canto, Villa-Lobos é muito plural. Ele escrevia para tudo, então era um compositor coringa. Você vai ver cantores, pianistas, saxofonistas e violinistas estudando as obras dele. Vários músicos se encontram no desenvolvimento que ele propõe. Villa-Lobos é muito presente na vida do músico, desde o momento que ele começa a produzir no início do século XX e até os dias de hoje. Não existe um pianista brasileiro que decida levar a sério o piano que não vá esbarrar com Villa-Lobos em algum momento da vida. Eu diria que é uma prerrogativa. Você deve esbarrar com o Villa-Lobos no piano porque ajuda a entender o instrumento, a música brasileira e de concerto por si só. É importantíssimo.

 

3) Em artigo publicado pela Revista USP, o professor e compositor Eduardo Seincman afirma que “a missão de Villa-Lobos era realizar uma espécie de ‘miscigenação musical’ do que seriam os elementos formadores da ‘alma brasileira’ com a linguagem musical ocidental de concerto”. Você diria que a multicultura do Rio de Janeiro foi um dos itens responsáveis por este anseio do músico?

Eu acredito que sim. O Rio de Janeiro era uma cidade muito plural na época. Tínhamos os negros escravizados; os processos de migração aconteciam há certo tempo, principalmente na segunda década do século XX. Muita gente veio da Europa por conta do fim da Primeira Guerra Mundial, que deixou o continente dizimado e em uma situação complicada para a classe “baixa”. Nisso, a grande vantagem de Villa-Lobos foi o fato de que ele tinha um ouvido livre de preconceitos para outros ritmos, que é o ouvido de um artista que está em busca de criar algo novo. Então, ele se permitia ouvir com atenção a música que sofria muito preconceito na época. Se você escuta Villa-Lobos, você percebe que ele acompanhava os tambores de candomblé e os rituais indígenas, pegava os ritmos da fonte de onde aconteciam, que é a característica do músico desse período. Ele ouvia a música e a transformava. Hoje, poderíamos colocar isso como uma apropriação cultural, o momento em que ele pega esses ritmos e os coloca em um contexto onde a classe “alta” aceita. Ele pega os ritmos de umbanda e do candomblé, da cultura negra e indígena, e as transforma em sinfonias, peças para piano e orquestra para a elite poder ouvir. É aí que ele começa a quebrar a estrutura de importação de novos aspectos musicais europeus. Villa-Lobos decide usar o que tinha por aqui, e isto se torna interessante também para a Europa. Ele cria algo novo para se ouvir lá, não há repetição. Quando a gente pensa em Carlos Gomes, que fez sucesso na Europa com o “O Guarani”, vemos que ele fez uma ópera italiana de sucesso. Não havia ritmos brasileiros, ele reproduziu o que se fazia na Itália. Villa-Lobos não, ele pegou o que estava no cotidiano. Por mais que a música clássica fosse feita para a elite da época, os músicos não faziam parte da elite. Eles são empregados da elite, que frequentam ambientes que não estão necessariamente dentro dos grandes salões. É de grande importância para a construção do Villa-Lobos a riqueza cultural que o Rio de Janeiro oferecia. A de São Paulo também, mas o Rio nessa época era a principal cidade do país. Eu acredito que sem esta miscigenação de culturas no período, existiria um grande músico de toda forma, mas Villa-Lobos precisou desta cama cheia de ritmos, cores e formas para poder criar a música que conhecemos.

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