Samba: da vadiagem a identidade nacional
Adrianne Magalhães Gomes
Roda de samba e roda de capoeira com pandeiro. Foto: Mariana Maiara
Para virar o samba que nós
conhecemos os sambistas sofreram bastante para tentar se impor. Já houve uma
época em que era sinônimo de “bandido” e de “vadio”, a pessoa que andava com um
pandeiro ou violão na mão e tocava o nosso amado samba. Ter esse tipo de
atitude e se “portar” dessa maneira, poderia até te levar preso. O samba foi mais
um dos movimentos culturais vindos da comunidade negra, africana, que sofreu
perseguição de autoridades racistas.
O compositor, cantor e
instrumentista João da Baiana, frequentou assiduamente a cadeia por continuar a
história e a divulgação do samba. O músico foi considerado por muitos o
responsável por introduzir o pandeiro nas rodas. Em um depoimento ao Museu da
Imagem e do Som do Rio de Janeiro ele afirma: “Fui preso várias vezes por tocar pandeiro”. João da Baiana, como
muitos outros sambistas, mesmo sendo marginalizado e muitas vezes até perseguido,
desce dos morros e começa a aparecer cada vez mais assiduamente na realidade
das ruas e para o restante da cidade.
No
seu desenvolvimento
Em um período em que o trabalho era extremamente valorizado, portar na rua um violão ou um pandeiro era ligado a uma malandragem e vadiagem. O código de postura e de conduta municipal, proibia a pessoa de carregar qualquer um desses instrumentos na área central da cidade. Além de ser um código de postura, era um crime por lei. Essa atitude era identificada como uma cultura popular, que na época era bastante discriminada e negligenciada.
O samba carioca,
começa a ter uma certa importância entre os intelectuais, a classe média e
entre os trabalhadores. No momento exato em que uma cultura verdadeiramente nacional
era construída, artistas como Pixinguinha, João da Baiana, Noel Rosa, Donga e
muitos outros, se misturavam com os intelectuais como Vila Lobos, Santos Dumont
e Manoel Bandeira, por exemplo.
A professora de história e
pesquisadora, Heloisa Meireles comenta que mesmo que o samba tenha ganhado evidência
por um lado, por outro ele sofre com influências externas em um movimento de
transformação constante. De acordo com ela, o samba vem como um elemento novo e
se renova a cada momento. Essa transição de uma música vista como marginal para
ser reconhecida como um marco brasileiro, teve alguns nomes que foram extremamente
importantes, como: Noel Rosa, Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Cartola e
Gilberto Alves, por exemplo.
Da esquerda para a direita: Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Mestre Marçal, da turma do Estácio e da Deixa Falar, pioneiros do samba carioca nos anos 20.
Noel Rosa, foi considerado um dos grandes representantes do samba carioca e junto a outros sambistas, foi um dos principais exportadores da nacionalidade brasileira. Conhecido como “poeta da vila”, pois morava no bairro bohemio de Vila Izabel, o cantor e compositor escreveu mais de 300 músicas. Diversas dessas músicas foram regravadas por artistas variados e são um sucesso até hoje. Uma de suas músicas mais famosas, “Com que Roupa”, foi gravada por outros artistas dezenas de vezes e reproduzida na plataforma Spotify e Youtube por volta de 1 milhão de vezes.
Nas letras de suas músicas, Noel Rosa, coloca personagens característicos da época. Sua obra representa um retrato das mudanças políticas, econômicas e culturais que aconteciam no Rio de Janeiro no início do século 20. O compositor envolve as diversas classes sociais ao abordar temas variados em suas canções. A música “Conversa de Botequim”, por exemplo, descreve a realidade dos cafés cariocas e dos seus frequentadores.
“Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma
boa média que não seja requentada
Um
pão bem quente com manteiga à beça”
Mesmo tendo morrido prematuramente de tuberculose, aos 26 anos, conseguiu contribuir de forma fundamental para a legitimação do samba de morro entre a classe média. Seu conjunto de canções se tornaram clássicas dentro das novas produções artísticas e culturais.
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