O porta-voz do “submundo” carioca
Bernardo
Muniz
Paulo Barreto, mais conhecido como “João do Rio”. Foto: Manuela dos Santos/Arte sobre imagens de divulgação
Paulo Barreto foi um marco no jornalismo nacional. Nascido no coração da
cidade do Rio de Janeiro, em 1881, o multifacetado jornalista mostrou desde
jovem sua habilidade para contar histórias. Aos 17 anos, teve seu primeiro
texto publicado, no jornal O Tribunal, cujo dono era Alcindo Guanabara. Apesar
do seu vasto talento com as palavras, sofreu muito preconceito por conta de
seus atributos físicos e também pelo fato de ser homossexual em uma sociedade
que, na época, era mais retrógada que nos dias atuais. Em 1902, o Barão de Rio
Branco se referiu a ele como “gordo, amulatado e homossexual”, mas nada disso o
impediu de ter sucesso na profissão. Ao longo de sua carreira, usou muitos
pseudônimos, em diversos veículos de imprensa, mas foi na Gazeta de Notícias
que forjou a alcunha que o segue até hoje, João do Rio.
Foi um dos primeiros jornalistas a se dedicar à profissão em tempo
integral, trazendo um olhar mais sério para uma função que era vista por muitos
como um “bico”. Durante a maior parte de sua carreira, explorou muito o gênero
da crônica para seus textos, de maneira que estabelecesse uma maior proximidade
com seu público. Ao mesmo tempo que circulava entre pessoas da elite,
ironizando esse meio em suas crônicas, dava atenção àqueles que estavam às
margens da sociedade carioca. Seu trabalho “As Religiões do Rio” é considerado por muitos o sua maior proeza.
Publicada em 1904, a série de reportagens abordava, a partir de uma análise
sociológica e antropológica, as religiões de matriz africana na cidade.
“Mesmo sendo mais da área da comunicação, a gente sempre fala do João
por causa das crônicas, e do seu estilo mais intimista de escrever,
principalmente nessa coluna. Acho que esse é um dos motivos que faz ele ser
relevante até hoje. Ele transporta a gente para um século atrás com uma
linguagem bastante atual, realmente estava muito à frente do seu tempo”,
frisou.
Apesar de ter falecido jovem, 39 apenas, Paulo Barreto teve uma vida
recheada de feitos relevantes. É, sem sombra de dúvidas, um dos maiores
jornalistas da história do Brasil. Para sempre será lembrado pela sua
resistência por não pertencer ao padrão da sociedade, pela sua maneira ímpar de
aproximar uma população majoritariamente analfabeta aos seus textos e por ser
capaz de eternizar um trabalho baseado naqueles que não eram vistos como parte
da sociedade. Não é à toa que mais de 100 mil pessoas acompanharam o seu
funeral, era muito querido por todos. Sua obra é objeto de estudo em
universidades e institutos, mesmo um século depois de sua morte, tamanha
importância que exerce na área. João do Rio é inesquecível.
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