Nem só de Pão de Açúcar vive o carioca

Luiz Gustavo da S. de Souza



Detalhes do Bondinho do Pão de Açúcar, por dentro e por fora, na década de 1920. A vista da Urca e da Praia Vermelha na época. Foto: Via MultiRio 


Na década de 20, é dada largada ao lazer, seja nos passeios à praia ou pelo processo de modernização espalhado pelo Rio de Janeiro. Através de reformas urbanas e políticas higienistas, a transferência da área central para a zona sul da cidade, reverbera ainda hoje no imaginário social carioca. Para o jornalista cultural Leonardo Lichote, é pela linha do trem que são traçadas novas possibilidades de existência e ocupação da cidade. Entretanto, há quem pense que não há boas opções de lazer no subúrbio. Os clubes de futebol periféricos, para além do caráter esportivo, desempenharam papéis sociais importantes para o lazer nos anos 20. O Bangu Atlético Clube, o Primavera F. Clube, o Royal no Méier, entre outros, formado majoritariamente por proletários e artistas contribuíram para a popularidade do futebol.

Além disso, na década de 20, figuras como João da Baiana e Noel Rosa também são importantes para contextualizar o lazer carioca desde então. Segundo o jornalista Leonardo Lichote, as diferentes formas de entretenimento no Rio de Janeiro do século XX carregam a tentativa de diálogos entre tradição rural e modernidade. “João da Baiana é protagonista além da obra religiosa, pode ser visto como cronista do cotidiano urbano de sua época.”

Já Noel Rosa, segundo Lichote, contribui com sua erudição e ameniza a questão racial no Brasil e, em alguma medida, ensaia uma solução ou alguma maneira de forjar uma imagem de convivência harmônica. O Rio de Janeiro dos anos 20 se desenvolve com os encontros proporcionados pelo lazer e em especial, pela música”, afirma o jornalista.

 O Rio de Janeiro continua lindo

O Rio de Janeiro está procurando novos caminhos para voltar a ser a cidade do futuro. Apesar dos desmontes das últimas gestões públicas, o carioca busca equilíbrio entre o caos e a beleza.  Segundo o músico e instrumentista Márcio Ricardo, cada geração fala e constrói questões próprias da cidade. O bondinho, o VLT, Noel Rosa e Ana Frango Elétrico estão espalhados pelo Rio.

Diferentemente dos anos 20, no qual a produção cultural pensava sobre integrar tradição e modernidade, hoje a identidade carioca já está “resolvida”. Alguns espaços da modernidade do Rio antigo continuam resistindo e convivendo com a vida cultural vigente, como o bar do Amarelinho em funcionamento desde a década de 20 ou mesmo o Cine Odeon.

O humor crítico nas revistas dos anos loucos, ou os manifestos artísticos e culturais, que foram fundamentais para a construir a imagem do Rio, hoje transitam pela Tijuca, Saúde, Lapa, Piedade entre outros bairros. Seja através das festas nas boates, nas rodas de samba, nos funks, a cultura segue participando da história e formação da cidade.

O Rio de Janeiro, assim como a música, continua construindo pontes para entender os seus próprios processos históricos.  O funk 150 que surge na Penha também dialoga com a sociabilidade plural do Rio. Segundo Leonardo Lichote, “estamos todos no mesmo momento histórico, tudo é ponte”. Uma canção política há 20 anos poderia ser cantada por Noel Rosa se ele vivesse até os anos 2000. Já o rap, a partir dos anos 90 evidencia os problemas sociais como racismo entre outros, bem como o samba carioca aborda realidades outras. Para o músico Márcio Ricardo, a cultura carioca, tida como mais baixa, pode ser útil para fazer conexões para pensarmos as cidades do Brasil.

 

 


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