Gilka Machado é a escritora que “poderia ter sido e ainda não foi”

 

Luísa Mattos

Gilka Machado posa para foto após ganhar o prêmio de maior poetisa brasileira. Foto: Revista O Malho,nº 1578, de março de 1933. Fonte: Hemeroteca Digital


Ao observar e tocar um pêssego, Gilka Machado descreve uma cena masturbatória feminina no texto “Particularidades”, de 1917. Já quando fala sobre uma relação a dois, crava as seguintes palavras para seu parceiro: "Tu te esqueceste em mim em fluido". Quando retrata a sociedade brasileira, exalta o povo e defende o direito de esterilização para jovens mulheres pobres. Escreve com naturalidade sobre os gases que o corpo humano solta e que nos deixa “em situações embaraçosas". Fala indiscriminadamente do seu uso de drogas como cocaína e morfina, famosas na época. Gilka é irreverente e transgressora como as demais escritoras dos anos 1920.

 

Fruto do movimento parnasiano e simbolista, Gilka problematiza a posição da mulher, valoriza o corpo feminino de forma erótica, e cria uma sensualidade sinestésica com sonetos rigorosamente metrificados. Para o professor titular de Literatura Brasileira da UFRJ Gilberto Araújo, na obra da poetisa “o corpo é um todo sensorial''. Os desejos do eu-lírico não podem se realizar, então projeta-os na paisagem ao seu redor com associações e metáforas quase explícitas”. 

 

Gilka da Costa de Melo Machado (1893 - 1980) nasceu no Rio de Janeiro, onde conheceu seu marido, o também escritor, Rodolpho Machado. Do casamento nasceram dois filhos:  Hélios - morreu ainda na infância de causa desconhecida - e Eros Volúsia, que se tornaria bailarina com carreira internacional e a primeira brasileira a ser capa da revista norte-americana “Life Magazine”, em 1941.

 

A criatividade e o reconhecimento não se restringiam apenas ao marido e à filha, toda família de Gilka respirava arte: era bisneta do famoso poeta do romantismo Moniz Barreto, sua mãe Thereza Cristina Moniz da Costa era atriz de teatro e radionovela, e seu pai era o poeta Hortêncio da Gama Souza Melo.

 

Desde muito nova, Gilka despertou seu talento ancestral para a escrita. Em 1907, aos 14 anos, ganhou os três primeiros lugares do concurso literário do jornal “A Imprensa”, e também seu primeiro confronto com os críticos literários que a julgaram como “matrona imoral”. Até 1931, a obra da escritora estava praticamente completa: “Cristais Partidos” (1915), “A Revelação dos Perfumes” (1916), Estados de Alma (1917), “Poesias” (1918), “Mulher Nua” (1922), “O Grande Amor” (1928), “Meu Glorioso Pecado” (1928) e “Carne e Alma” (1931).

 

Em 1923, após ficar  viúva, enfrentar dificuldades financeiras e lutar contra os críticos literários conservadores da época, a escritora diminuiu seu ritmo de publicação e quase chegou ao total ostracismo. Em 1979, um ano antes de sua morte, recebeu um dos maiores reconhecimentos de sua carreira, o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, que foi uma tentativa de reavivar a imagem de Gilka no cenário literário.

 

Mesmo sendo considerada a maior poetisa do Brasil pela revista Malho, em 1933, e admirada por diversos nomes, como Olavo Bilac e Carlos Drummond de Andrade, a escritora sofreu diversos boicotes durante sua vida, sendo resgatada novamente para o olimpo de escritores somente nos anos 2000.

 

A atualidade dos poemas de Gilka e de outras artistas dos anos 30 contradizem o que importantes figuras daquela época pensavam do movimento feminista como algo pequeno e fugaz. O potencial dessas autoras para a literatura brasileira e internacional ainda não foi totalmente explorado e, como define o professor Gilberto Araújo, “Gilka é a poetisa que poderia ter sido e ainda não foi”.

 

 

Capa da publicação “A Revelação dos Perfumes”, de Gilka Machado. Fonte: Hemeroteca Digital

 


Uma rara e a mais reproduzida fotografia de Gilka Machado.

Fonte: Acervo pessoal / Divulgação

 

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