Em 25 de março de 1922, nascia o Partido Comunista brasileiro
Beatriz Aguiar
Membros do PCB no encontro do dia 25 de março de 1922 em Niterói-RJ
Enquanto isso, de forma quase subterrânea, a fundação do
primeiro partido de representação da classe trabalhadora era maquinado por
Astrojildo Pereira, Joaquim Barbosa, Luís Peres, e outros representantes Brasil
afora. Hoje, existe um grande certame em torno da reivindicação da fundação do
Partido Comunista do Brasil, que se explica, dentre outras coisas, pela
cisão do grupo por membros dissidentes.
Apesar disso, é possível afirmar que aquela reunião discreta que chamaram de
Primeiro Congresso do Partido Comunista - Seção Brasileira da Internacional
Comunista (PC-SBIC ou PCB) mudou para sempre a história política do país.
Marxismo-leninismo
anarquista
Alguns falam em nove membros representativos, outros em 11,
o fato é que o primeiro congresso, realizado na cidade de Niterói, no Rio de
Janeiro, foi organizado por uma maioria cuja herança tinha sido o anarcossindicalismo.
A jornalista e ex-presa política da Ditadura empresarial-militar de 1964, Iza
Salles, acredita que trabalhadores europeus que migraram para o país - em maior
número italianos, portugueses e espanhóis - ajudaram a difundir a teoria
anarquista no chão de fábrica e nas lutas urbanas da época. “O anarquismo como
teoria é muito representativo aos trabalhadores. O marxismo era mais
intelectual, mais difícil, já o primeiro era mais acessível”.
A fragmentação do movimento anarquista, no entanto, fez com
que militantes órfãos buscassem alternativas para continuar o debate político
que crescia nas grandes metrópoles. Um deles foi Antônio Bernardo Canellas,
jornalista nascido em Niterói que passou anos de sua vida engajado com o
sindicalismo no nordeste do país. Também membro e fundador do PCB, Canellas foi
escolhido para representar a delegação brasileira no IV Congresso da
Internacional Comunista no final de 1922 em Moscou, na Rússia.
Iza Salles, que é estudiosa do período e da vida política de
Bernardo Canellas, relembra as dificuldades logísticas e ideológicas para criar
o grupo. “Eles decidiram fundar o partido para responder um apelo que vinha da
Rússia. Num primeiro momento, Octávio Brandão e Bernardo Canellas hesitaram,
Astrojildo ironizava o comunismo; só depois foram conquistados. Mas a repressão
era muito forte, mesmo identificados como anarquistas, a comunicação era
difícil, pois poderiam ser presos”.
Os acontecimentos históricos da primeira metade do século
foram fundamentais na consolidação e no crescimento do PCB, mas também em sua
ruptura. Segundo a escritora, no final da década de 1920, apenas Astrojildo
permanecia na organização. Essa debandada se relaciona diretamente com o
embrião anarquista do partido, já que obedecer ordens de Moscou e sacrificar a
autonomia política era motivo de insatisfação entre os militantes. A vitória da
Rússia na Segunda Guerra Mundial, no entanto, transformou um partido deserto em
grande agente político nos anos porvir. “Existe uma falsa impressão de que o partido
já nasceu poderoso, mas não é isso. Ele vai tomar impulso nos anos 1930 e,
sobretudo, nos anos 1940, com a vitória russa; antes disso, ele [praticamente]
não existe”, reitera Salles.
Astrojildo Pereira (segundo da esquerda para direita) e Graciliano Ramos (terceiro da esquerda para direita) em 1945 na sede do partido.
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