Em 25 de março de 1922, nascia o Partido Comunista brasileiro

 


 Beatriz Aguiar  

 

                                                             Membros do PCB no encontro do dia 25 de março de 1922 em Niterói-RJ

 

 O ano de 1922 em terras tupiniquins foi marcado por grandes eventos políticos e culturais. Antes dos conflitos tenentistas de julho contra o governo recém-eleito de Artur Bernardes, aconteceu a maior revolução cultural  de celebração de um movimento artístico genuinamente brasileiro. A Semana de Arte Moderna, que teve início no dia 13 de fevereiro de 1922, foi um aglomerado das bombas de cultura que ocorriam no país inteiro e que, certamente, atraiu todos os olhos da imprensa e da intelectualidade nacional daquele período.

 

Enquanto isso, de forma quase subterrânea, a fundação do primeiro partido de representação da classe trabalhadora era maquinado por Astrojildo Pereira, Joaquim Barbosa, Luís Peres, e outros representantes Brasil afora. Hoje, existe um grande certame em torno da reivindicação da fundação do Partido Comunista do Brasil, que se explica, dentre outras coisas, pela cisão  do grupo por membros dissidentes. Apesar disso, é possível afirmar que aquela reunião discreta que chamaram de Primeiro Congresso do Partido Comunista - Seção Brasileira da Internacional Comunista (PC-SBIC ou PCB) mudou para sempre a história política do país.

 

Marxismo-leninismo anarquista

 

Alguns falam em nove membros representativos, outros em 11, o fato é que o primeiro congresso, realizado na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, foi organizado por uma maioria cuja herança tinha sido o anarcossindicalismo. A jornalista e ex-presa política da Ditadura empresarial-militar de 1964, Iza Salles, acredita que trabalhadores europeus que migraram para o país - em maior número italianos, portugueses e espanhóis - ajudaram a difundir a teoria anarquista no chão de fábrica e nas lutas urbanas da época. “O anarquismo como teoria é muito representativo aos trabalhadores. O marxismo era mais intelectual, mais difícil, já o primeiro era mais acessível”.

 

A fragmentação do movimento anarquista, no entanto, fez com que militantes órfãos buscassem alternativas para continuar o debate político que crescia nas grandes metrópoles. Um deles foi Antônio Bernardo Canellas, jornalista nascido em Niterói que passou anos de sua vida engajado com o sindicalismo no nordeste do país. Também membro e fundador do PCB, Canellas foi escolhido para representar a delegação brasileira no IV Congresso da Internacional Comunista no final de 1922 em Moscou, na Rússia.

 

Iza Salles, que é estudiosa do período e da vida política de Bernardo Canellas, relembra as dificuldades logísticas e ideológicas para criar o grupo. “Eles decidiram fundar o partido para responder um apelo que vinha da Rússia. Num primeiro momento, Octávio Brandão e Bernardo Canellas hesitaram, Astrojildo ironizava o comunismo; só depois foram conquistados. Mas a repressão era muito forte, mesmo identificados como anarquistas, a comunicação era difícil, pois poderiam ser presos”.

 

Os acontecimentos históricos da primeira metade do século foram fundamentais na consolidação e no crescimento do PCB, mas também em sua ruptura. Segundo a escritora, no final da década de 1920, apenas Astrojildo permanecia na organização. Essa debandada se relaciona diretamente com o embrião anarquista do partido, já que obedecer ordens de Moscou e sacrificar a autonomia política era motivo de insatisfação entre os militantes. A vitória da Rússia na Segunda Guerra Mundial, no entanto, transformou um partido deserto em grande agente político nos anos porvir. “Existe uma falsa impressão de que o partido já nasceu poderoso, mas não é isso. Ele vai tomar impulso nos anos 1930 e, sobretudo, nos anos 1940, com a vitória russa; antes disso, ele [praticamente] não existe”, reitera Salles.

 Um militante do Rio

 


Astrojildo Pereira (segundo da esquerda para direita) e Graciliano Ramos (terceiro da esquerda para direita) em 1945 na sede do partido.

 Nascido no dia 8 de novembro de 1890, no município de Rio Bonito, no Rio de Janeiro, Astrojildo Pereira foi a face do Partido Comunista Brasileiro dos anos iniciais. Único membro da reunião do Primeiro Congresso a permanecer no partido até o fim da década, primeiro como dirigente, depois como secretário, Astrojildo dedicou a vida à atividade revolucionária.

 Um dos poucos intelectuais a ocupar as fileiras do PCB, o jornalista, escritor e militante político abandonou a escola aos 15 anos para se dedicar ao ‘autodidatismo arqui-atabalhoado’, em suas palavras. A partir daí, Astrojildo aproximou-se do anarcossindicalismo, cuja ideologia seguiria até a vitória da Revolução Russa.

 Com Lênin no comando e o sucesso da Internacional Comunista (IC), a fragmentação dos movimentos anarquistas no Brasil logo ensejaria a fundação do PCB, no dia 25 de março de 1922, na cidade de Niterói-RJ. Acompanhado de Octávio Brandão e Bernardo Canellas, Astrojildo organizou a reunião secreta de instauração do Partido Comunista no país, cujo reconhecimento foi buscado no IV Congresso da IC. Epitácio Pessoa, presidente em fim de mandato, logo tratou de pôr na ilegalidade qualquer movimentação de organização política da esquerda na época.

 Restou a Astrojildo Pereira continuar com discrição o trabalho do grupo comunista, que tinha a missão de cumprir as atividades enviadas pelo Partidão de Moscou. Os anos a seguir foram conflituosos, com grande disputa interna entre os militantes e alto número de dissidência, que mais tarde resultou em outros partidos, vide o PCdoB. O ex-anarquista Astrojildo persistiu na luta revolucionária e se dedicou à produção de periódicos do partido, como “A Classe Operária”, “A Nação” e o “Movimento Comunista”, que tinham como público-alvo os trabalhadores urbanos.

 Astrojildo Pereira foi eleito um dos 58 membros da Comissão Executiva no VI Congresso da Internacional Comunista, em 1928, ao lado de Stalin. Em 1931, foi retirado do cargo de secretário-geral e expulso do partido, por sua aproximação com Luís Carlos Prestes. O militante e grande fã de Machado de Assis retomou o estudo das letras e se dedicou à política cultural do Rio de Janeiro, mas nunca abandonou o Partido que ajudou a criar.

 

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