Cinema carioca: 100 anos de história

  Victor Afonso Meira

A década de 20 foi um momento de transição para o cinema brasileiro. O que predominou com o fim da primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, foi o cinema estrangeiro. Porém o mundo das artes estava fervoroso nesse tempo, por conta do desfecho da guerra e o fim da gripe espanhola. Motivo que levou a década seguinte ficar conhecida como os loucos anos 20, já que as pessoas estavam com sede de viver.

A cidade do Rio de Janeiro se tornou um epicentro das pautas culturais, com a popularização do samba, futebol e do carnaval. As ideias modernistas também entram em voga, a partir de 1922, após a semana de arte moderna em São Paulo. Mas no cinema, o que predominava entre os realizadores brasileiros, era um conteúdo mais documental. As cavações, como são conhecidas, eram os cinejornais que mostravam passeatas políticas, festas, inaugurações e outros eventos grandes na cidade.

Os chamados filmes posados, de ficção, não eram os mais comuns entre os produtores brasileiros. Havia uma predominância grande do cinema de hollywood e europeu. Mas a capital carioca tomava gosto pelas imagens em movimento. Não é atoa que em 1917 começa a idealização da Cinelândia, que ao longo da década seguinte foi se expandindo por concentrar muitas salas de cinema e teatro.

No entanto, havia cineastas cariocas que foram importantes para o desenvolvimento dos filmes nacionais de ficção. Entre eles, Luiz de Barros, que produziu o primeiro longa-metragem sonorizado brasileiro: Acabaram-se os otários (1929). Segundo pesquisadores, o filme possuía canções pré-gravadas, mas é difícil definir em exato o quanto do filme era sonorizado, mesmo comprovado que também tinha diálogos.

Cineasta Luiz de Barros. Foto: Arquivo Nacional

Este tipo de problema com o filme de Luiz de Barros, acontece com outras produções da década de 20. Assim como é complicado falar que os filmes da época possuíam características modernistas. O professor de Cinema Brasileiro da PUC-Rio, Pedro Henrique Ferreira, conta que é difícil avaliar o quanto de “moderno” tinha nessas produções da época.

“O cinema brasileiro silencioso é marcado fortemente por uma oposição que nos anos 20 ganha maior relevo. É o contraponto entre campo e cidade, que no fundo é uma oposição de visão de mundo entre o cosmopolitismo, do que viria ser a política de Estado Novo de 1930, e a herança da República velha. Essa ideia nacional regionalista do Brasil verdadeiro, não como o país cosmopolita, mas como o Brasil profundo.”

Adhemar Gonzaga e as revistas de cinema

Um outro grande nome para os filmes posados cariocas, foi Adhemar Gonzaga, diretor de Barro Humano (1929). O produtor também era ator e fundador da Cinearte, importante revista de cinema da época. A revista também tinha influência da Selecta, outra impressão sobre a sétima arte que circulava nas bancas cariocas.

O longa de Gonzaga teve como base os moldes norte-americanos e foi produzido por Paulo Benedetti, outro realizador que segundo o professor Pedro Henrique, foi um dos que mais produziram filmes no Rio. Entre estes, A Esposa do Solteiro (1926), que teve a primeira aparição de Carmen Miranda nos cinemas.

Diretor e ator Adhemar Gonzaga. Foto: Jack Freulich

O legado de Adhemar Gonzaga foi tanto que ele também fundou a Cinédia, produtora que marcou os anos 30 do cinema brasileiro e ajudou a movimentar a cena carioca. Era o começo de uma cidade que ainda viria contribuir muito para o audiovisual brasileiro.

 

 

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