Cem anos sem João do Rio, o cronista das ruas cariocas

 

Bernardo Poppe


 

                                       João do Rio tinha 39 anos quando morreu de um infarto fulminante – Foto: Reprodução

Há cem anos, a cidade do Rio de Janeiro parava para se despedir de Paulo Barreto, jornalista, cronista e escritor celebrizado pelo pseudônimo João do Rio, o mais famoso dos vários alônimos utilizados pelo carioca. Mais de 100 mil pessoas compareceram ao funeral do cronista, realizado no cemitério São João Batista, em Botafogo. Considerado um dos pioneiros da crônica brasileira e do jornalismo de rua, João do Rio viveu como poucos a então capital do Brasil.

Em suas obras, o jornalista procurava dar voz para pessoas normalmente ignoradas pelos jornais e livros, trazendo histórias da vida de cortiços, favelas e marginalizados. Dessa maneira, mergulhava nesse outro lado da cidade, conversava com as pessoas e vivia de perto as mesmas experiências que elas para retratá-las com realismo e sensibilidade. João do Rio apresentava outro Rio de Janeiro, fora do mito de “ordem e progresso”: violenta, mas vibrante pela cultura popular.

Belle Époque

Na visão de muitos, o escritor revolucionou o jornalismo com seu estilo. Se antes os repórteres não saiam da redação, João do Rio passou a ir às ruas verificar in loco o que acontecia na cidade, que passava por grandes reformas estruturais no início do século XX.

Sob o pretexto de transformações urbanas voltadas para a ideia de civilização, o governo derrubava cortiços e expulsava gente pobre, em nome da modernidade e da elegância. Na Belle Époque carioca, o Rio de Janeiro queria ser uma Paris tropical.

- No livro “A alma encantadora das ruas”, o João do Rio expõe muito bem as contradições próprias da modernidade do Rio de Janeiro. Ele ia aos morros, conversava com mendigos, crianças de rua, viciados em ópio. As mazelas do Rio eram retratadas, assim como os ambientes mais sofisticados – conta a historiadora Mônica Carvalho.

 Preconceito

            Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em sua terceira tentativa, em 1910, e o primeiro a tomar posse usando o hoje famoso “fardão dos imortais”. Mas por ser negro, gordo e homossexual, foi o alvo perfeito para os ataques de muitos.

            João do Rio era duramente perseguido, vítima de todo tipo de preconceito. Todavia, nada disso o impediu: pouquíssimos escritores produziram tanto nas primeiras décadas do século XX como o carioca. Foram cerca de 20 livros, entre romances, crônicas, reportagens, ensaios e peças de teatro.

            As ofensas também vinham de outros literatos, como Antônio Torres e Lima Barreto, e muitas vezes iam parar nas páginas de jornais e livros. Por serem nacionalistas vorazes, os escritores criticavam com veemência estrangeirismos. João do Rio, por sua vez, era cosmopolita, pensava em francês e vestia-se à moda dândi.

            - Os dândis foram uma revolução na forma de se vestir e comportar do homem moderno. É o cavalheiro perfeito, alguém que escolhe viver a vida de maneira intensa. Um dos dândis mais famosos foi Oscar Wilde, escritor irlandês. O João do Rio era um leitor voraz dele, tanto que acabou traduzindo algumas de suas obras – explica Mônica.

Memória

            Cem anos depois de sua morte, podemos dizer que a memória de João do Rio resta descuidada. Testemunha fiel de um dos períodos históricos mais relevantes para a história brasileira, pouco ou nada se vê em referência ao autor nos meios culturais.

            Hoje, João do Rio é nome de uma rua em Botafogo: Rua Paulo Barreto. Enquanto isso, em Lisboa, na terrinha, há um busto erguido em memória do cronista. O carioca deveria demonstrar uma maior gratidão a um dos principais nomes de sua história.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O desmonte e o descaso com o morro do Castelo

Nair de Tefé: um patrimônio esquecido no Brasil

Samba: da vadiagem a identidade nacional