Cem anos sem João do Rio, o cronista das ruas cariocas
Bernardo Poppe
Há
cem anos, a cidade do Rio de Janeiro parava para se despedir de Paulo Barreto,
jornalista, cronista e escritor celebrizado pelo pseudônimo João do Rio, o mais
famoso dos vários alônimos utilizados pelo carioca. Mais de 100 mil pessoas
compareceram ao funeral do cronista, realizado no cemitério São João Batista,
em Botafogo. Considerado um dos pioneiros da crônica brasileira e do jornalismo
de rua, João do Rio viveu como poucos a então capital do Brasil.
Em
suas obras, o jornalista procurava dar voz para pessoas normalmente ignoradas
pelos jornais e livros, trazendo histórias da vida de cortiços, favelas e
marginalizados. Dessa maneira, mergulhava nesse outro lado da cidade,
conversava com as pessoas e vivia de perto as mesmas experiências que elas para
retratá-las com realismo e sensibilidade. João do Rio apresentava outro Rio de
Janeiro, fora do mito de “ordem e progresso”: violenta, mas vibrante pela
cultura popular.
Belle
Époque
Na
visão de muitos, o escritor revolucionou o jornalismo com seu estilo. Se antes
os repórteres não saiam da redação, João do Rio passou a ir às ruas verificar in
loco o que acontecia na cidade, que passava por grandes reformas estruturais no
início do século XX.
Sob
o pretexto de transformações urbanas voltadas para a ideia de civilização, o
governo derrubava cortiços e expulsava gente pobre, em nome da modernidade e da
elegância. Na Belle Époque carioca, o Rio de Janeiro queria ser uma
Paris tropical.
-
No livro “A alma encantadora das ruas”, o João do Rio expõe muito bem as
contradições próprias da modernidade do Rio de Janeiro. Ele ia aos morros, conversava
com mendigos, crianças de rua, viciados em ópio. As mazelas do Rio eram
retratadas, assim como os ambientes mais sofisticados – conta a historiadora
Mônica Carvalho.
Foi eleito para a Academia
Brasileira de Letras em sua terceira tentativa, em 1910, e o primeiro a tomar
posse usando o hoje famoso “fardão dos imortais”. Mas por ser negro, gordo e
homossexual, foi o alvo perfeito para os ataques de muitos.
João do Rio era duramente perseguido,
vítima de todo tipo de preconceito. Todavia, nada disso o impediu: pouquíssimos
escritores produziram tanto nas primeiras décadas do século XX como o carioca. Foram
cerca de 20 livros, entre romances, crônicas, reportagens, ensaios e peças de
teatro.
As ofensas também vinham de outros
literatos, como Antônio Torres e Lima Barreto, e muitas vezes iam parar nas
páginas de jornais e livros. Por serem nacionalistas vorazes, os escritores
criticavam com veemência estrangeirismos. João do Rio, por sua vez, era
cosmopolita, pensava em francês e vestia-se à moda dândi.
- Os dândis foram uma revolução na
forma de se vestir e comportar do homem moderno. É o cavalheiro perfeito,
alguém que escolhe viver a vida de maneira intensa. Um dos dândis mais famosos
foi Oscar Wilde, escritor irlandês. O João do Rio era um leitor voraz dele,
tanto que acabou traduzindo algumas de suas obras – explica Mônica.
Memória
Cem anos depois de
sua morte, podemos dizer que a memória de João do Rio resta descuidada. Testemunha
fiel de um dos períodos históricos mais relevantes para a história brasileira,
pouco ou nada se vê em referência ao autor nos meios culturais.
Hoje, João do Rio é nome de uma rua
em Botafogo: Rua Paulo Barreto. Enquanto isso, em Lisboa, na terrinha, há um
busto erguido em memória do cronista. O carioca deveria demonstrar uma maior
gratidão a um dos principais nomes de sua história.
Comentários
Postar um comentário