A união da verde-rosa e Cartola
Emanuel Bonfim Leite
Cartola em seu último desfile pela Mangueira, em 1978 (Foto:
Agência O Globo / Aníbal Philot)
“São verdes, os campos, as
matas. E o corpo das mulatas quando vestem verde e rosa, é Mangueira. É verde o
mar que me banha a vida inteira”. É dessa maneira que o lendário sambista
Cartola abre a canção “Verde que quero rosa”, uma de suas músicas em homenagem
à Mangueira, um dos seus grandes amores, ao lado do Fluminense e de sua última
esposa, Dona Zica. Compreender o valor da relação entre Cartola e a Estação Primeira
de Mangueira é crucial para entender a importância do caminho construído pelos
dois no Morro da Mangueira para a população do Rio de Janeiro no século XX.
Nascido em 1908, o jovem
Angenor de Oliveira não enfrentou as reformas capitaneadas por Rodrigues Alves
e Pereira Passos, mas encarou as consequências diretas do projeto urbanizador
do 5° presidente do país. Com a infância passada pelos bairros do Catete e das
Laranjeiras, Cartola conheceu os famosos ranchos carnavalescos e se encantou
pelo carnaval carioca, especialmente pelo “Arrepiados”, que posteriormente
seria fundamental na criação da Estação Primeira. Enquanto o sambista crescia,
a cidade se transformava.
Com a destruição do morro
do Castelo, muitos moradores de cortiços da região encontraram no Morro da
Mangueira o espaço para uma nova moradia. Recheado de misturas de manifestações
culturais africanas, o morro cresceu em população e tornou-se centro de
resistência aos movimentos higienistas do Estado. Dentro de uma cidade em plena
expansão, Cartola e sua família se deslocam da zona Sul para a Mangueira no ano
de 1919 e começam uma nova etapa na vida, mudança marcante para a história do
samba e da música brasileira.
Verde-rosa torna-se popular
Obrigado a trabalhar para
ajudar a família financeiramente, Cartola morava no Buraco Quente, mas rodava
pelo Morro da Mangueira. A morte da mãe do sambista foi crucial para que ele
fosse expulso de casa pelo próprio pai e começasse a viver perambulando pelo
morro. É nesse caminho livre que Cartola conhece Deolinda, sua primeira esposa,
e mais alguns amigos de bebidas, farras e sambas. Junto a Carlos Cachaça,
Saturnino, Zé Espinguela e muitos outros, o sambista fundou o Bloco dos
Arengueiros, que posteriormente daria origem à emblemática Estação Primeira de
Mangueira no ano de 1928.
Apaixonado pela Verde-Rosa,
o carioca Mateus Angelo conta que se encantou pela escola graças à influência
do avô, que sempre se orgulhou da torcida pela Estação Primeira. “Meu avô não
era da Mangueira, mas gostava de escutar samba todo domingo. Era Mangueira
desde sempre. Não consegui perguntar como virou, mas só sei que sempre foi”,
comenta.
A atuação de Cartola e seus
amigos foi necessária e fundamental para o aumento do prestígio do samba e do
carnaval carioca no imaginário popular. Atualmente, o festival é muito
bem-visto, mas no começo do século XX enfrentava muita perseguição do Estado,
que encarava os envolvidos na festa como malandros e vadios. A história formada
por Cartola e a multicampeã Mangueira construiu um importante legado para o Rio
de Janeiro, seja para o lado musical com o samba ou populacional com a vitória
de uma sociedade marginalizada.
Quarenta e dois anos após
sua morte, Cartola continua em prestígio com a Estação Primeira e será
homenageado no Carnaval de 2022, ao lado de Jamelão e Delegado. Mais um sinal
da importância do casamento do sambista com sua querida escola pelo Morro da
Mangueira. Até porque já dizia o mesmo “Alvorada lá no morro, que beleza.
Ninguém chora, não há tristeza”.
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