A carioca mais inteligente dos anos 20

 

Luisa Gevaerd





                                      Albertina não sentia medo dos conservadores (Foto: arquivo Anna Faedrich)

A carioca mais inteligente dos anos 20 Albertina Bertha fugia dos padrões da época. Suas obras balançaram os moralistas. No dia 7 de novembro, a escritora carioca Albertina Bertha completaria 141 anos. Apesar dos poucos registros sobre sua vida, foi um dos nomes mais importantes da elite cultural carioca dos anos 20. Ela escreveu cinco livros, sendo três romances e dois ensaios filosóficos. Além disso, ministrou conferências sobre estética, literatura, psicologia infantil e filosofia, sua paixão. Foi, inclusive, uma das prercursoras do filósofo Nietzsche no Brasil, sendo apelidada de sua "madrinha".

Sua opinião era requisitada e respeitada. Isso é visto através das inúmeras entrevistas - com temáticas como voto feminino e criação de uma Academia Feminina de Letras - que concedia para imprensa periódica. Ela chegou a ser considerada pela revista Fon Fon “a maior inteligência feminina do Brasil”. Conhecida pelo eruditismo, Bertha amava estudar, o que derramava em seus livros por meio de extensas referências às mais refinadas obras da Literatura europeia.

Por ser filha de Conselheiro Lafayette, o ministro da Justiça e conselheiro do Imperador D. Pedro II, a escritora recebeu uma educação privilegiada, capaz de intimidar até os homens mais cultos da época - talvez um dos motivos por trás das duras críticas feitas ao seu trabalho. Em 1916, aos 36 anos, Albertina Bertha publicou seu primeiro livro “Exaltação, um dos maiores sucessos da década. O romance de introspecção conta a história de uma mulher casada, Ladice, e de seu amante. Ladice deseja passar os dias estudando filosofia e literatura. Além de não ter desejo pela maternidade, nem depositar a sua felicidade e realização na figura do marido. Quando se apaixona pelo poeta Teófilo, segue os seus desejos e se entrega ao amor, traindo seu esposo.

O teor erótico e adúltero do livro revoltou alguns católicos, que mandaram queimá-lo. Outra pessoa incomodada por Exaltação foi Lima Barreto, que se queixou em uma troca de cartas que sua obra “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” não estava vendendo tão bem quanto o sucesso "frívolo" de Albertina. Ainda assim, o livro foi reeditado 5 vezes e vendeu 25 mil exemplares. É curioso que hoje em dia, não se veja menção ao nome de Albertina Bertha - nem de muitas outras, como Gilka Machado, Julia Lopes, Crisanthéme - em nenhum livro de História ou Literatura. Acredita-se que nos séculos passados não havia espaço para mulheres causarem impacto social ou intelectual. Isso não é verdade.

Apesar das dificuldades, algumas ciêntistas, escritoras, pintoras conseguiam enfrentar preconceitos e receber destaque pelos seus trabalhos. A História se nega a lembrar das que ousaram e exclui a produção feminina. Graças a pesquisadores, como Anna Faedrich, obras dessas artistas apagadas vêm sendo resgatadas. Ela é professora de literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF) e recuperou Exaltação de Albertina Bertha, que já era um livro praticamente impossível de adquirir, para que fosse publicado em 2016 numa nova edição comentada. "Infelizmente, muita coisa de autoria feminina se perdeu. Existem títulos de obras, mencionadas na imprensa, que não se acham mais. O espólio das escritoras não recebeu o mesmo cuidado que o dos escritores. Aos poucos, os pesquisadores e pesquisadoras vão reconstituindo essa história subterrânea que é a das mulheres escritoras”, diz Anna.




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