Felipe Musa
Painel com traços modernistas que retratam o esporte. Goleiro – Vicente do Rego Monteiro, 1930
De revistas art nouveau à
profusão de pianos em casas art decó, a modernidade debuta na capital da
República do início do Século XX. As ruas se expandem em boulevards,
tenentes se rebelam contra generais e chorões, malandros e melindrosas povoam
as ruas do Rio de Janeiro. Paralelamente, a elite carioca incorpora a prática
de esportes europeus e passa a remar, nadar, correr e pular por mares, lagoas e
campos da capital. Porém, dentre todas as importações, o foot-ball inglês
não só cria raízes como se torna parte da nova identidade nacional – fomentada
também pelos modernistas. Especialista em futebol e modernismo, o historiador
Bernardo Buarque de Hollanda conta o início dessa relação.
Por descender de uma matriz europeia
trazido por uma elite cultural, o futebol primeiramente foi rejeitado pelos
modernistas e chegou a representar uma das três pragas que assolavam o país em Macunaína,
obra de Mário de Andrade. Com a expansão do esporte para o subúrbio
carioca em meados de 1920, a modalidade se difundiu no interior do estado e
também na comunidade intelectual. O gosto pelo esporte começou a ser percebido
não só no aumento do público em jogos, mas também em poesias como Paulicéia
Desvairada (1922) de Mário de Andrade ou João Miramar (1924) de
Oswald de Andrade.
Com o início de partidas entre
países latinos na década de 1920, o esporte passa a ser amplamente divulgado na
imprensa e exaltado em outros campos. Na esteira da modernidade e de um
caldeirão de ideias, a modalidade começa a se transformar em identidade
nacional como afirma o pesquisador Bernardo Buarque de Hollanda na tese O futebol como
alegoria antropofágica: modernismo, música popular e a descoberta da
"brasilidade" esportiva. Para o também professor, a
incorporação do esporte expõe a antropofagia modernista brasileira ao absorver
uma cultura originalmente estrangeira.
– Pela via do futebol pude
correlacionar o modernismo com o esporte, seja na vertente vanguardista – que
vai apregoar a cidade às ideias de movimento, de ruptura com a tradição –, seja
naquele movimento que – a partir da poesia "Pau-Brasil" (1924), de
Oswald de Andrade – vai pensar o lugar de tradição nessa história moderna. E também
de que maneira o futebol como um fenômeno alheio à realidade brasileira se
enraíza ao longo das primeiras décadas no Rio de Janeiro. Na primeira metade do
século já têm elementos que trazem as características de uma cultura popular
para uma leitura de uma metamorfose da própria prática esportiva tal como veio
importada da modernidade – explicou Buarque de Hollanda.
Representação de um jogador da Seleção
Brasileira na Copa do Mundo. Francisco Rebolo, 1936
A importância da
crônica e jornal
Apesar de manifestações futebolísticas em
diversos campos, é no jornalismo – mais especificamente em crônicas e histórias
em quadrinhos – que o futebol ganha maior projeção. Nesse momento de ausência
de especialização esportiva em redações, a presença de jornalistas “literatos”
agrega novos aspectos no modo como se retrata o jogo. Para o pesquisador de 47
anos, os textos do romancista e jornalista, José Lins do Rêgo, representam essa
absorção literária do fenômeno esportivo.
– José Lins do Rêgo não só comentava como ficcionalizava as partidas. Ele
se associou ao
advento dos quadrinhos dos jornais esportivos e transfigurou a linguagem
literária nos símbolos dos clubes que viraram personagens. Os personagens eram
das revistas em quadrinho e essa linguagem chegava na crônica através da
maneira como Lins do Rêgo contava as partidas. O Almirante Vascaíno digladiava o
marinheiro Popeye em escaramuças que se davam entre esquadras. Isso
mostrava como o futebol era um campo fértil para uma série de alegorias
estabelecidas pelos cronistas. Ao se
colocar no mesmo patamar de discussão que o torcedor, José Lins despertou uma
aproximação entre cronista e leitor em um diálogo que antecedia e sucedia os
jogos, prolongando o gosto da discussão – uma maneira de promover o futebol – afirmou
o pesquisador.
Assim como os bondes –
símbolo do progresso –, os gols se juntam a esse novo tempo de agitação em
diferentes esferas. A partir de um esforço conjunto e orgânico de diferentes
estratos sociais, a relação com o esporte se entremeia com o cotidiano, crenças
e gostos populares. De operários e
imigrantes à intelectuais e políticos, o futebol passa a representar um aspecto
moderno do cosmopolitismo que rege as grandes cidades: um fenômeno (ou para
outros, sintoma) expressivo da modernidade.
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