Uma noite sem fim: Lapa e a boemia carioca nos anos 20
Juan Gomez
A
boemia do Rio de Janeiro é conhecida globalmente. O carioca sempre teve uma
relação muito forte com a vida noturna, o que reflete diretamente na construção identitária da cidade e a maneira de pensar e vivenciar a
experiência urbana. O bairro da Lapa, desde o século XIX, se consolidou como
epicentro artístico e boêmio, servindo como palco para importantes figuras –
dos meios artístico, social e político – que ajudaram a transformar o Rio no
grande cartão-postal que se tornou.
Mudança
de calçamento na rua dos Arcos” - Malta, Augusto (1928)
Na década de 20 o Rio de Janeiro era a mais relevante cidade do Brasil. Com pouco mais de um milhão de habitantes, a cidade – que ainda era a Capital Federal – era o maior centro comercial e cultural do país. À medida que a política nacional no início do século XX mostrava-se cada vez mais concentrada no eixo São Paulo-Minas, com a famosa República do Café com Leite, os governantes do Rio procuravam formas de reinventar a cidade e, sobretudo, deixá-la mais atraente ao olhar público.
O
prefeito Pereira Passos, em união com o governo federal do presidente Rodrigues
Alves, promoveu, entre 1902 e 1906, o maior capítulo na história da
transformação urbanista carioca. Uma série de reformas, que tinham como
objetivo deixar a capital fluminense num mesmo nível estético que as
importantes e cultas cidades europeias, sobretudo Paris – a
grande musa inspiradora do Rio nas primeiras décadas do século passado.
Paris,
que vivia a belle époque, serviu de
inspiração geral para o desenho urbano do Rio. A arquitetura grandiosa e
rebuscada, ruas arborizadas, os vestidos com plumas, batons vermelhos, teatros
refinados e até mesmo pombos: praticamente todos os elementos que chamavam a
atenção de quem passa PASSAVA pela Cidade da Luz estavam sendo
importados para a Cidade Maravilhosa.
A
Lapa, localizada no coração carioca do centro da cidade, foi amplamente afetada
por essa mudança de caras. O bairro recebeu a abertura de diversos bares,
cafés, cassinos e cabarés: estabelecimentos que faziam imenso sucesso na
capital francesa. A área passou a ser conhecida, inclusive como a Montmartre
tropical – o bairro mais boêmio de Paris, que abrigava figuras como Degas,
Renoir, Van Gogh e Toulouse-Lautrec. A versão brasileira, servindo de palco
para Di Cavalcanti, Noel Rosa, Manuel Bandeira e Villa Lobos.
Embora
sob muita influência parisiense, não foi apenas disto que se consolidou a força
cultural na Lapa. O estilo de vida boêmio estava em ascensão e não era mera
réplica da farra francesa. Tratava-se de um fenômeno natural em um momento de
urbanização e industrialização: o indivíduo nunca antes fora tão valorizado.
Com as estruturas tradicionais em decadência, o movimento aderido pela parcela
intelectual jovem era o de deixar a família, sua base, em movimento migratório
para fora do meio privado. O historiador Pedro Balthazar
explica:
“Existe
um estigma em torno da boemia carioca. Muita gente acaba por confundir com
preguiça, desleixo, que são pessoas despretensiosas. Mas acaba que é o
contrário, principalmente se falarmos da vida boêmia nos anos 20. Estamos
falando de uma classe intelectual, muito atenta às questões sociais, ao ponto
de vivenciarem a cidade ao máximo. Quando se reúne tantas pessoas com uma
grande gana pelo meio onde vivem, o natural é o que aconteceu na Lapa: se cria
um epicentro cultural artístico absurdo. Tanto é que até hoje as rodas de samba
pelo país cantam Noel Rosa e suas composições de bar e as escolas ensinam Manuel
Bandeira. Negar a boemia do Rio é negar a essência carioca”.
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