Rio, cartão-postal

 

 Lorrana Melo Cordeiro

 

O Rio de Janeiro da década 20, ainda capital do Brasil, foi para a fotografia da época a imagem da modernização e dos avanços urbanísticos que vinham acontecendo desde o início do século. As ruas recebiam luz elétrica e transporte público. As favelas surgiam ao mesmo tempo em que as grandes avenidas, os novos bairros e prédios iam sendo construídos. O atravessamento dos avanços tecnológicos foi se misturando com o movimento, almejado pelos intelectuais modernistas, de criar a identidade do brasileiro, dar ao povo o sentimento de nacionalismo e pertencimento. Para que essa empreitada desse certo, era preciso mostrar que espaço é esse que conhecemos como Brasil. Ficou para a fotografia o papel de construir o imaginário do que seria esse ambiente brasileiro, através da documentação e registro dos avanços modernos na cidade do Rio.

 

 Bonde passando no Centro do Rio de Janeiro, por Augusto Malta em 1924. Acervo IMS-Instituto Moreira Salles.


A fotografia dos anos 20 está totalmente associada às transformações urbanas, que vinham acontecendo na capital, não só pelo projeto de construção da imagem do brasileiro, mas também por conta do papel que o fotógrafo exercia dentro desse ambiente social. Os militares, por exemplo, possuíam uma equipe de fotógrafos e usavam a imagem como ferramenta para mapear a cidade e suas condições. Pereira Passos, o então prefeito na época, contrata o alagoano Augusto Malta para primeira função de fotógrafo público. Malta passa então a acompanhar e registrar os eventos públicos e as transformações da cidade, como por exemplo a política de demolições que ficou conhecida como “bota-abaixo”.

Bairros da Glória e do Flamengo, registrados por Augusto Malta em 1919. Acervo IMS-Instituto Moreira Salles

 

O fotógrafo e o esquecimento



O fotógrafo nessa época registrava a cidade porquê esse era o assunto em latência, o que precisava ser registrado, a modernidade alterou tanto o espaço físico do Rio de Janeiro que a imagem que temos dessa época são as fotografias documentais, de rua, de paisagem, era essa a imagem consumida e demandada pelas instituições do Estado e da mídia. É nesse período que surge, também, os fotojornalistas e novas técnicas fotográficas que permitiam maior mobilidade e manipulação para o fotógrafo.

O movimento modernista de progresso impôs a fotografia que circulava na época uma visão quase que restrita ao ambiente urbano porquê, para além da necessidade de construção da identidade nacional, a imagem fotográfica possui um caráter de “representação do real”. Como se o que fosse visto na fotografia, fosse o próprio real. Era essa imagem, de necessidade de progresso e urbanização, que eles queriam para construir a identidade do povo. Para essa empreitada, nada melhor do que uma ferramenta como a fotografia, que te dá a falsa impressão de representação do real. A imagem de Augusto Malta se perde nesse emaranhado de imagens que tentaram construir e vender um Rio e um Brasil que não era só isso. Imagem que existe até hoje como cartão-postal.

Outro exemplo do atravessamento da modernidade é o fotógrafo André-Charles Armeilla, que até pouco tempo nem nome tinha. Como fotógrafo, André saia registrando a cidade e vendia suas fotos para revistas ou nas ruas como cartão-postal. Foi nos cartões-postais que sua imagem circulou Rio a fora e foi assim que ele se manteve até a morte. Tudo que se sabe de André só se sabe por que um colecionador acabou comprando uma coleção de fotos que não tinha a identificação completa do nome do autor e impactado pela curiosidade acabou investigando por anos até saber quem era aquele fotógrafo que registrava o rio de modernidade. Entre demolições e prédios monumentais, esquecimentos e registros, ruas e morros, o que fica de concreto sobre fotografia do Rio de Janeiro é a inconcretude da sua representação do real. Esse cartão-postal é de fato a modernidade brasileira ou na verdade são apenas imagens do que se desejava e almejava do ideal moderno?

 

INFORMAÇÕES

Primeira fotografia tirada no brasil

Rio a partir da chegada da fotografia

Fotografia de Augusto Malta dos cortiços (artigo na pasta de texto do hd) - fala sobre o processo de modernização do Rio de Janeiro

Fotógrafo André-Charles que foi enterrado como indigente e apagado da memória do Rio de Janeiro

Livro Rio Pelo Alto 2 (estante da sala)

Ficheiro pesquisa - página para resgate de fotos antigas do rio de janeiro, contruido pela jornalista que escreveu Rio pelo Alto 2

Relação de Pereira Passos com Augusto Malta

 







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