Os primeiros art déco preparam o Rio ao modernismo

Edifício Odeon. Fonte: WikiMapia

Mateus Garcia de Oliveira


O Rio de Janeiro começou o século XX com a ânsia de superar o seu passado colonial e passou por profundas transformações para se tornar uma cidade importante na dinâmica mundial. Vislumbrava de Paris o modelo ideal para se inspirar e trazer o modernismo em voga. Nos anos 1920, um novo estilo arquitetônico surge na capital francesa, se espalharia pelo mundo e também deixaria sua marca aqui nos trópicos, o art déco.

O maior momento de expressão do estilo foi na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris em 1925. A Europa vivia sua Belle Époque e a arquitetura moldou características modernas para as novas construções com o otimismo de anos prósperos. Há uso de materiais mais resistentes como o concreto armado em aço e formas geométricas em simetria, com entradas estilizadas, cores fortes e design abstrato.

Rio é capital na América Latina

Considerada a capital do art déco na América Latina, o Rio tem mais de 400 imóveis nesse estilo. O auge se deu nos anos 1930 e 1940, quando foram construídos os mais conhecidos edifícios, porém os primeiros exemplares se deram logo nos “Anos Loucos” de 1920 e acompanharam a revolução cultural e as tendências dos movimentos modernistas nas artes. Uma característica desse período foi o nacionalismo com a valorização de elementos da cultura indígena e popular para afirmar uma cultura nacional. O art déco chegou ao Brasil incorporando a vertente Marajoara, em homenagem aos indígenas da ilha de Marajó, e criou uma especialidade brasileira.

No Centro há uma concentração de edifícios e a Cinelândia foi um dos primeiros pontos a ganhar uma nova atmosfera e se tornar um polo cultural e de modernização do Rio. Em cima do histórico Cine Odeon, na Praça Floriano, há o imponente Edifício Odeon, de 1926, em que se destacam as janelas bem delimitadas em formas geométricas definidas com decorações esculpidas de plantas, símbolos femininos e o brasão da República. Ainda na mesma praça, também há o prédio do antigo Cine Pathé (1928), o primeiro cinema a utilizar o design do art déco, hoje alugado pela igreja Universal , e o Edifício Rex (1929), na rua Álvaro Alvim, logo em cima do Teatro Rival Refit.


Outra joia do art déco do período é o Teatro Carlos Gomes (1929), na Praça Tiradentes. De outro polo cultural da cidade, o Teatro tem uma história mais longeva. Foi construído em 1872 como Teatro Cassino Franco Brasileiro e era lugar de frequência da família real. Em 1880, muda de proprietário e o nome para Theatro Sant´Anna. Enfim, Em 1904, a casa foi reinaugurada com o nome de Carlos Gomes, em homenagem ao compositor de ópera brasileiro, autor de “O Guarani” ao ser adquirido pelo empresário do entretenimento Paschoal Segreto. Um incêndio em 1929 destruiu a maior parte da estrutura do prédio e com o apelo dos artistas que trabalhavam no teatro, conseguiu fundos com comerciantes locais e foi reconstruído em art déco. Atualmente, é tombado e pertence à Prefeitura onde se promovem atividades culturais.


Mais perto do Porto, ergue-se, ainda em 1929, o Edifício A Noite, primeiro arranha-céu da América Latina, com 24 andares. Localizado no início da antiga Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, foi um marco arquitetônico e impulsionou a outros surgirem nos anos seguintes. Seu estilo ao art déco é mais próximo ao desenvolvido nos Estados Unidos. Foi elaborado por Joseph Gare, também arquiteto do Copacabana Palace, Palácio Laranjeiras e Hotel Glória, e Elisário Bahiana, arquiteto com grandes obras em São Paulo. Inicialmente, foi sede do Jornal A Noite de Irineu Marinho, e em 1937, sede da Rádio Nacional de onde eram transmitidos os principais programas da emissora. Hoje encontra-se sem uso e está na lista do leilão do Governo Federal.


Na Zona Sul, os prédios em art déco são mais residenciais e precisaram acomodar uma elite acostumada a viver em grandes casas e mansões. No Flamengo, os primeiros em déco foram o Edifício Tamandaré (1928), localizado na rua Almirante Tamandaré, e o Edifício Paissandu (1929), na rua Paissandu. Nos anos seguintes, outros iriam surgir especialmente próximo à praia e tornariam o bairro uma região bastante caracterizada pelo estilo.


Já o bairro com a maior concentração de edifícios art-déco é Copacabana  se deu na mesma época, o que favoreceu ao estilo art déco ser predominante no bairro. Essa característica é tão marcante que há o projeto de lei 512/2001 que preserva 31 edificações, protegidas como Patrimônio Cultural do Município.

O primeiro de todos foi o Edifício Ribeiro Moreira (1928), na esquina da praia com a praça do Lido. Seus treze andares lhe renderam o apelido de “rasga-céu” até ser ofuscado pelos prédios vizinhos que viriam posteriormente. É possível logo reconhecer por suas varandas longas, ter os andares superiores em forma escalonada e as linhas geométricas. Tem 47 apartamentos de dois quartos. Também há uma gigantesca portaria com revestimento de variados mármores.

Quase centenário, o art déco conquista admiradores pela sua beleza que promovem encontros e roteiros para visitar e conhecer a histórias de cada lugar. O jornalista e guia de turismo Rafael Bokor tem uma página no Facebook “Rio - Casas & Prédios Antigos” e organiza alguns desses passeios. Ele disse que em média vão 20 pessoas por excursão e conta o porquê de se ser tão apreciado:

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