O futebol do Club de Regatas Vasco da Gama e a resposta histórica
Gabriela Marino da Silva
Camisas Negras: o time do Vasco campeão carioca em 1923
Em
1923, o Club de Regatas Vasco da Gama foi campeão carioca com um time composto
por jogadores de várias origens, como negros, mulatos, portugueses e brancos
pobres da classe operária. Apesar de haver outros times com jogadores destas
características (por exemplo o Bangu), essa era a primeira vez que os times
mais elitistas da cidade eram incomodados por um time da periferia.
O
Vasco venceu o América e o Fluminense, conquistando o campeonato, em seu ano de
estreia na primeira divisão, no dia 12 de agosto de 1923, deixando o Clube de
Regatas Flamengo, na segunda colocação, o que acabou marcando
significativamente a história do clube, do Rio de Janeiro e do Brasil, por ser
o primeiro do Clube em uma campanha com integrantes afro-descendentes, pobres e
operários a ser campeão. Com isso, embora não tenha sido o primeiro a contar
com jogadores negros, time se tornou símbolo de luta contra o racismo depois da
'Resposta Histórica' redigida há 95 anos.
Resposta
Histórica
Depois
de perderem em campo, os dirigentes dos clubes rivais resolveram investigar as
atividades profissionais e sociais dos camisas negras, como ficou conhecido o
time de 23, uma vez que o futebol ainda era amador e os jogadores não podiam
receber salário por praticarem o esporte. Um verdadeiro golpe para tirar o
Vasco das disputas.
Assim
foi criada uma nova liga, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA),
impondo ao clube apelidado de Camisas Negras, pela cor de seu uniforme, a
exigência de excluir 12 jogadores que, de acordo com os cartolas, não
apresentavam “condições sociais apropriadas para o convívio esportivo”. O
analfabetismo foi uma das razões enumeradas pela liga para desqualificar parte
do elenco campeão.
O
Club de Regatas Vasco da Gama recusou a proposta prontamente. E através de uma
carta histórica de José Augusto Prestes, então presidente cruzmaltino, o
Gigante da Colina mostrou sua total indignação à discriminação racial: “Estamos
certos de que Vossa Excelência será o primeiro a reconhecer que seria um ato
pouco digno de nossa parte sacrificar, ao desejo de filiar-se à Amea, alguns
dos que lutaram para que tivéssemos, entre outras vitórias, a do Campeonato de
Futebol da Cidade do Rio de Janeiro de 1923 (…) Nestes termos, sentimos ter de
comunicar a Vossa Excelência que desistimos de fazer parte da AMEA”. Vítima do
racismo de seus adversários, restou ao Vasco disputar, com outros times de menor
expressão, o campeonato da abandonada Liga Metropolitana de Desportos
Terrestres.
Para
o historiador Ricardo Pinto dos Santos, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, o aspecto econômico influenciou decisivamente tanto a defesa vascaína
em nome dos atletas quanto a mudança de ideia dos cartolas sobre a exclusão do
clube. “O Vasco percebeu que não poderia sobreviver sem o talento de seus
jogadores da classe trabalhadora, assim como a AMEA, mais adiante, entendeu que
a incorporação daquele time que arrastava multidões aos estádios seria
lucrativa. Houve retorno financeiro para os dois lados com a aceitação de
atletas negros.”
Hoje
o Club de Regatas Vasco da Gama é considerado pioneiro na luta contra o racismo
no futebol. E a torcida vascaína reverencia a carta com os versos de um cântico
aclamado nas arquibancadas: “Eu já lutei por negros e operários... Camisas
Negras que guardo na memória”....
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