J. Carlos: o artista insuperável


Marcos Vinícius Arouca da Silva

Um dos mais importantes representantes do estilo Art Déco no design gráfico brasileiro, chargista e ilustrado e por mais de 50 anos, o artista é referência no design brasileiro 




Na primeira metade do século XX, José Carlos de Brito e Cunha, mais conhecido como J. Carlos, foi um artista autodidata: atuou como desenhista, ilustrador e editor de arte; trabalhou em publicidade na criação de logotipos e de desenhos infantis. Além disso, teve experiência como escultor e cenógrafo para peças de teatro, entre outras atividades. J.Carlos ganhou destaque como um importante chargista na sua época, o que o levou a ser um dos precursores do design gráfico na indústria editorial do país, e o principal representante do estilo art déco em programação visual no Brasil.

 Nascido no dia 18 de junho de 1884, o carioca de berço e modernista por vocação, era um observador da cena urbana de seu tempo, e suas charges o transformaram no principal cronista do Rio de Janeiro. Retratava os hábitos dos moradores e o processo de urbanização da cidade, além do surgimento de diversas invenções e modismos, como o telefone, a fotografia, o chope, o samba, o bonde elétrico, o automóvel, o cinema, o rádio, o avião, a cultura do futebol, a praia e o carnaval. Além de cimentar seu nome na história da crônica visual, J. Carlos é considerado por pesquisadores um dos pioneiros do modernismo no Brasil por sua leitura de estilos europeus como art nouveau e art déco, marcados por traços geométricos inspirados em formas naturais. 

Preconceitos Apesar da indiscutível genialidade, J. Carlos teve em sua trajetória episódios que não são tão louváveis, como seu humor politicamente incorreto e principalmente seu discurso comumente agressivo e preconceituoso para com os negros, mulheres e outras minorias. "Ele era bem racista, tinha pensamentos e comportamentos que hoje jamais seriam aceitos, principalmente pela maneira como a sociedade rejeita o politicamente incorreto nos dias atuais", resume Maria Eduarda Arrochelas, bisneta. Ao desenhar pessoas negras, J. Carlos recorria aos clichês visuais da época e traçava figuras com poucos traços, beiços grandes, olhos esbugalhados e movimentos exagerados. "Há de se levar em consideração que esse comportamento era o recorte de uma boa parcela da população, pois o público também reproduzia e compartilhava dos mesmos pensamentos”. Comenta Maria Eduarda. Caricaturista original Com um estilo impossível de se copiar, J. Carlos se tornou um dos mais originais caricaturistas brasileiros de seu tempo. 

O humor, a rapidez e a clareza de seu desenho registraram as mudanças de costumes e comportamento ocorridas no Rio de Janeiro, na virada do século XIX. Foi a partir da revista Careta (entre 1908 e 1921) que seus personagens se popularizaram. Ao longo de sua carreira, entre 1902 e 1950, o artista Obras de Arte de J. Carlos -– Catálogo das artes ocupou, com muito bom gosto e elegância característica, as páginas de quase todas as revistas ilustradas do período: O Malho, Para Todos, A Cigarra, Vida Moderna, Revista Nacional, Cinearte, Fon-Fon, A Avenida, Tico-Tico (semanário infantil), O Papagaio, O Cruzeiro e A Noite. Sem surpresas, J. Carlos produziu cerca de 100 mil desenhos em quase 50 anos de ofício. Para Maria Helena Arrochelas, neta de J. Carlos, a contribuição do artista não se deu apenas à sua época, mas se faz presente e é de extrema importância para a história e cultura do país nos dias atuais. 

“A fantástica vivência e olhar que meu avô teve para a sociedade foi política, religiosa, plural. Um olhar agudo que marcou não só a geração dele, mas todas as gerações até hoje. Se você pega qualquer charge é de uma atualidade incrível, e o traço dele é inevitavelmente inconfundível”, contou a parente. Boa parte do acervo de J. Carlos está no Instituo Moreira Sales (IMS). Além de 990 desenhos originais, há um grande conjunto de revistas reunidas em volumes encadernados, todos em bom estado de conservação. Também existem dez álbuns com materiais diversos relacionados ao artista, como notícias de jornal, convites, anúncios e programas de exposições.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O desmonte e o descaso com o morro do Castelo

Nair de Tefé: um patrimônio esquecido no Brasil

Samba: da vadiagem a identidade nacional