Imprensa feminina: o grito por representatividade

 

Paulo Almeida

                      


Mulheres deixaram para de usar espartilhos e passaram a usar roupas mais leves (Foto de Aline Silva, via Pinterest)

    As primeiras décadas do século XX representaram o começo da emancipação feminina. Na década de 20, houve a inserção das mulheres no mercado de trabalho como  operárias, garçonetes e professoras, o que garantiu mais direitos civis e sociais. Fora isso, elas deixaram de usar roupas excessivamente formais e que não eram práticas, como espartilhos, e substituíram por roupas mais leves, como vestidos decotados e na altura dos joelhos. O cinema passou a adotar uma imagem mais sedutora e poderosa da figura feminina, como são os casos de Anita Page e Clara Bow. Essa conjuntura possibilitou um impulso para o processo da emancipação e cidadania da mulher.

    Embora as mudanças mais drásticas ocorressem na moda, a imprensa feminina ganhou força, principalmente no Rio. Na década de 20, surgiram os primeiros movimentos organizados com o objetivo de melhorar a condição de vida da mulher. Diante disso, a imprensa periódica feminina aproveitou para disseminar a intimidade e refletir os anseios femininos, o que funcionou como um porta-voz da modernidade.

   Gisella Moura, professora de história do Colégio e Curso pH, diz que, além do caráter militante, as mulheres revolucionaram as técnicas no modo de se fazer comunicação. “A imprensa feminina contribuiu para a renovação do parque gráfico e aderiu ao uso de caricaturas, principalmente em matérias de eventos sociais e moda, que eram de interesse feminino. Além disso, houve a valorização do uso de imagens para retratar reportagens e a utilização de vinhetas ilustrações para ornar as publicações”, afirma.

 Os salões

   Outro fator que impulsionou o ganho de força da imprensa feminina foi o hábito de leitura da mulher nos anos 20. Os salões eram espaços nos quais as elites se reuniam para fazer eventos sociais, como declamação de poesia e canto. Neles, existia o hábito da leitura em voz alta, visto que o acesso aos textos impressos era difícil. Embora fossem um espaço de negociação dos homens, as mulheres organizavam o local e participavam dos eventos, o que gerou nelas o costume da leitura.

    “Os salões simbolizavam o espaço público onde indivíduos se reuniam e confraternizavam. Portanto, os salões eram um local de mediação entre a esfera privada e a esfera pública, o que contribuiu para que houvesse o enraizamento da leitura, pois ela era uma mediadora entre os indivíduos. Eles possibilitaram que as mulheres presentes tivessem acesso a diversos gêneros literários, o que aumentou o contato delas com livros e textos e, consequentemente, o interesse por veículos de comunicação”, afirma Gisella.

   A relação entre a imprensa feminina e seu público era recíproca. Enquanto os periódicos estavam a serviço da mulher e abordavam assuntos do universo feminino, como moda e poesia, as moças da época viam nas revistas um ideário de modernidade e avanço, e uma representatividade essencial para a conquista de direitos. Os jornais tinham seções com dicas destinadas às mulheres, o que ajudava nas tarefas domésticas. Fora isso, contribuiu para a disseminação do universo feminino e para a difusão da mulher como relevante para a sociedade.

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