Cinelândia: a Broadway brasileira
Rafael Serfaty
Popularmente
conhecida como Cinelândia, a Praça Floriano é um dos pontos mais charmosos do
Rio de Janeiro. Localiza-se no centro da cidade, numa área que engloba desde a
Avenida Rio Branco até a Rua Senador Dantas, e da Evaristo da Veiga até a Praça
Mahatma Gandhi, onde outrora ficava o Palácio Monroe. É o espaço com o maior
número de instituições culturais do Rio, referência em matéria de diversão
popular. Entretanto, foram nos anos 1920 que a região, de fato, começou a se
tornar o que é hoje.
Segundo
a arquiteta Taisa Carvalho, autora do livro Cinelândia - Memória, Identidade,
Patrimônio, os cinematógrafos tornaram-se a mania da população carioca no
começo do século XX. As salas de cinema se multiplicavam pela cidade, chegando
à Zona Sul e aos subúrbios. O público, antes constituído pela classe operária,
passava a ser mais seletivo de acordo com a categoria de cinema, que ganhou a
entrada de filmes sonoros na década de 20. Conforme a sétima arte evoluía,
foram exigidas melhores instalações para abrigar as novas tecnologias.
Em
1917, o terreno do antigo Convento da Ajuda foi comprado pela Companhia Brasil
Cinematográfica, fundada por Francisco Serrador. Para Taisa, o objetivo do
empreendedor era instalar neste terreno o maior centro de diversões da América
do Sul, intitulado “Quarteirão Serrador”. O projeto não foi todo implantado,
mas foram construídos quase simultaneamente quatro cines-teatro – Odeon,
Capitólio, Império e Glória –, além de edifícios de escritórios, um hotel e
pequenas lojas ao redor dos cinemas. A autora afirma que a edificação dos novos
cines-teatro foi o principal objetivo de Serrador: investiu na construção de
prédios grandes, luxuosos, e na importação dos melhores filmes.
O
projeto foi concluído em 1925 e, de acordo com Taisa, representou a
consolidação desse tipo de entretenimento na Praça Floriano, que rapidamente
passou a ser chamada de Cinelândia. Além dos espaços confortáveis e seguros
para o lazer, se firmava a indústria cinematográfica, que passou a representar
uma fonte de investimentos. Segundo a arquiteta, os cinemas da Cinelândia
introduziram o padrão norte-americano, com salas grandiosas e luxuosas – as
melhores da cidade na época. Não ficou conhecida como a Broadway brasileira por
acaso.
Um espaço elitizado
De
acordo com a jornalista Talitha Ferraz, professora na ESPM Rio e do Programa de
Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense
(PPGCine-UFF), Serrador queria a Cinelândia como um lugar para fazer um
“programa completo”. A ideia do empresário é que lá fosse possível tomar um
café, ir ao cinema, ir ao ringue de patinação, jantar e assim por diante. O
problema é que, segundo Talitha, o projeto se revelou grande demais para a
cidade.
–
Não é de se estranhar que esses espaços não tiveram um consumo em grande
escala. A população do Rio de Janeiro naquela época não era tão grande, e boa
parte dela era uma população pobre, de escravos recém-libertos. O projeto da
Cinelândia foi megalomaníaco. Ele seria ótimo em uma cidade urbanizada há mais
tempo, com mais público para aquele complexo de lazer e compras que o Serrador estava
projetando. Foi muita aposta para pouco retorno, a cidade não acompanhava esse
tipo de estrutura.
Talitha
afirma que a Cinelândia, na prática, era um lazer burguês. Embora o trabalhador
pudesse ir ao cinema, ainda havia muita herança do período colonial. Para a professora,
a Cinelândia não era um lugar democrático, até por ser um espaço de
sofisticação. Ir ao cinema era um evento. Mas segundo Talitha, curiosamente, o
legado cinematográfico da praça não se perpetua. O período de ouro é muito
curto: começa na década de 20, vai de fato até os anos 40, e na década de 60 as
coisas já não estão bem.
–
A Praça Floriano Peixoto, antes dos cinemas, foi o berço do Teatro Municipal,
da Câmara dos Vereadores, da Biblioteca Nacional. Então a gente tem esses
espaços que também conferiram ao longo do tempo uma importância para a
Cinelândia, em termos de ponto focal onde as coisas acontecem. A Cinelândia que
recebeu e ainda recebe muitas manifestações políticas. É claro que o cinema
configura o imaginário sobre aquele espaço, mas talvez esse legado seja mais
simbólico do que cinematográfico. Desaparecem os cinemas e o Odeon é o único
que está ali sendo mais ou menos mantido. Outras atividades vão ser muito
importantes, e essas continuam.
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