Bar Amarelinho: cem anos de histórias que se confundem com o Rio

 

João Pedro Fragoso


                   Bar Amarelinho: cem anos de histórias que se confundem com o Rio (utor desconhecido)

Desde seu nascimento em 1921, a história do Bar Amarelinho se confunde com o Rio de Janeiro. Na época, a então chamada de “Rio das Luzes”, seguia o embalo de Paris, Nova Iorque e Nova Orleans, cidades diretamente envolvidas nos chamados “Anos Loucos”. Sendo assim, todos os aspectos da vida urbana se modificavam e nomes renomados chegavam a capital do Brasil, como João do Rio, Lima Barreto e Carmen Miranda. Foi nesse ritmo que surgiu o Amarelinho.

Localizado na Cinelândia, que era conhecida como a “Broadway Brasileira”, o Bar, que hoje é um monumento do Rio de Janeiro, foi nomeado primeiramente de “Café Rivera”, mas passou a ser chamado de Amarelinho por conta da cor das paredes externas do prédio onde fica. Desde a época de sua criação, o Amarelinho foi um importante ponto para os movimentos culturais e até políticos do Rio de Janeiro. Vizinho do Theatro Municipal e da Câmara dos Vereadores, o estabelecimento já foi palco de grandes debates sobre o cenário brasileiro em geral. Figuras como Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Mário de Andrade, Joel Silveira, Vinicius de Moraes discutiram nas mesas do bar, a Semana de Arte Moderna, a luta pela igualdade racial, o início da Era Vargas, os movimentos nacionalistas, a fundação do Partido Comunista, entre muitos outros assuntos, como o impeachment do ex-presidente Fernando Collor.



— A casa foi inaugurada em 1921 e faz agora cem anos. O Amarelinho era uma casa menor e tinha outras lojas ao redor. Aos poucos nós fomos comprando elas e aumentando o Amarelinho, deixando como ele está hoje. O nome do Amarelinho passou a ser mais identificado por conta dos encontros que aconteceram aqui. As pessoas diziam “Me encontra no Amarelinho”, “Vamos ao Amarelinho”. Muitas vezes os artistas vinham da Urca jantar aqui após um show. Grande Otelo, José Augusto, todos vinham aqui — disse José Lorenzo Lemos, que é, há 40 anos, sócio do Amarelinho. Além disso, muitos frequentadores assíduos do estabelecimento alegam que é muito por conta de José Lorenzo que o Bar viveu seu auge. Na época que chegou, em 1970, o Amarelinho não vivia uma boa fase, em função dos fechamentos dos espaços culturais por conta das obras do metrô na região do centro da cidade. No entanto, com a chegada do espanhol, o Bar voltou a reviver o sucesso do passado.

Ligação com o Partido Comunista

Desde a sua criação, em 1922, até 1985, quando foi liberado para concorrer às eleições para prefeitos que aconteceriam naquele ano, e para a Assembleia Constituinte, no seguinte, o Partido Comunista Brasileiro só havia vivido dois anos na legalidade, em 1945 e 1946 — numa tentativa de Getúlio Vargas de continuar no poder. Por isso, quando veio a legalização em 1985, os líderes e membros do partido decidiram fazer uma grande comemoração. E ela aconteceu no Amarelinho.

A história do PCdoB, assim como a do Rio, se confunde com o Bar Amarelinho. De acordo com alguns historiadores, as primeiras reuniões do partido, quando ainda não era oficial, aconteceram no estabelecimento. Sendo assim, militantes do partido decidiram comemorar a legalidade no Bar histórico.

— O PCB (na época a sigla do partido era PCB, e não PCdoB) resolveu se encontrar no Amarelinho para “bebemorar”. Afinal, é uma data histórica porque a partir de 1947 o PCB não teve mais existência legal. Hoje, podemos atuar às claras, abertamente, como o PFL (antigo Partido da Frente Liberal, atualmente chamado Democratas [DEM]), por exemplo, um partido em processo de registro — disse na época Givaldo Siqueira, um dos membros cassados no Golpe Militar de 1964 e ex-membro da Executiva Nacional Provisória do PCdoB.

Há tempos o Amarelinho é o Bar favorito de manifestantes que vão ao Centro do Rio reivindicar, protestar ou apoiar algum político ou movimento com que se identifiquem. Na maioria das vezes, de pessoas identificadas com temas de partidos de esquerda. No entanto, nos últimos meses, cidadãos que vão às ruas da Presidente Vargas para criticarem o governo Bolsonaro não puderam frequentar o Amarelinho, que chegou a ser fechado durante a pandemia por conta da crise econômica que assombrou todos os estabelecimentos do país, assim como a população em geral. Mas em julho de 2021, o Bar foi comprado pelo empresário Antônio Rodrigues, dono de outra rede gastronômica conhecida, dona do Belmonte, e que promete reabrir o Amarelinho respeitando todas as tradições e histórias do Bar.

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